Pelo Corredor da Escola

Apontar temáticas do cotidiano escolar é o objetivo primeiro deste blog, na intenção de ser "elo" entre as partes envolvidas (aluno/professor). A reflexão é o nome deste elo, que não só une, mas debate e critica os principais livros do Brasil e do mundo.

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Nem Qualidade nem Mérito


ESTÁ MAIS do que comprovado que o projeto de um Brasil maior jamais se efetivará sem a educação. Sem ela em todos os níveis, porque nela todos são prioritários. Certa vez, tentei revalorizar o pré-escolar e não encontrei o apoio que esperava dos pedagogos de plantão e dos ombros coroados, que me convidaram para abrir e renovar, na forma da lei, a experiência, o saber e a imaginação. Contra-argumentava que, mesmo não sendo tão sistêmicas, essas instâncias inaugurais e a família decidiam a sorte do sistema. Corrigiriam os números insuportáveis de repetência e de evasão pública e privada. Mas essa é outra história, felizmente perdida no tempo. O grave é que, desde a redemocratização, indiferente à urgência da reforma política, ampla, geral e irrestrita, a educação não conseguiu avançar. Chegou a tragar alguns nomes qualificados. As salas de aula inadequadas, a falta de bibliotecas atualizadas e os materiais escolares fraudados foram prosperando, em ritmo bem mais veloz do que o país. A autossuficiência, que é própria da ignorância e da vaidade, não se fez de rogada. O capítulo do salário docente vem sendo verdadeira aberração. Tornam-se cada vez mais necessários os enlaces da consciência dialógica. Volto a insistir: educação sem qualidade não é educação, é caso de polícia (nunca pensei que um dia na minha vida, tão a contragosto, viesse a recorrer à polícia). Hoje se fala em qualidade, sobretudo aqueles sonegadores, como se a qualidade não fosse um valor diferenciado e socialmente encarnado. Como se fosse apenas um slogan eleitoral. Precisamos urgentemente repensar o Brasil, com Celso Furtado, Raymundo Faoro, Carlos Guilherme Mota, Samuel Pinheiro Guimarães. Chega de amadorismo, de palpites desarticulados. A qualidade e o mérito, avaliados com os vícios do sistema, reprodutor de privilégios intermináveis, nunca reformam ou transformam. Apenas reforçam as iniquidades persistentes. Será que essa gente não se cansa de ser os gigolôs do que seriam políticas públicas? É certo que a aliança de ética e política sempre foi uma aspiração fracassada. Mas já é hora de dar um basta. Esse esforço conjugado de renascimento, para ser realista, terá de transpor o limite partidarista. Falta, não me canso de repetir, educação à cultura, e cultura à educação. Edgar Morin, que havia denunciado a natureza humana como paradigma perdido, ao predicar pela inclusão de um elenco de sete saberes nos sistemas de educação conhecidos, que vão do liceu à universidade, reclama agora a compreensão crítica em uma trajetória que vai do conhecimento até o antropoético. A racionalidade aberta, que impulsiona o entendimento da complexidade, estaria ausente dos nossos currículos escolares, e mais amplamente acadêmicos, escolas. Em determinados países com ideologias diversificadas, onde houve reformas educacionais profundas, dificilmente se descuidou da implantação de bibliotecas públicas. A questão envolve nações que mudaram de alfabeto, como aconteceu na Turquia, em 1928, do árabe para o latino. É verdade que o latino era utilizado paralelamente nas escolas daquele país e suas possessões na Europa e Ásia desde 1635. Mas, foi a determinação do fundador da República Turca, Kemal Atatürk, que levou à mudança geral de letras e do direcionamento da escrita, da direita para esquerda, passando a ser da esquerda para direita. Uma proposta dessas na Turquia só poderia ser viabilizada com a implantação de bibliotecas, pelo fato de ter sido incluída toda uma população já fora de aulas. No Brasil, a questão é mais simples até porque, desde 1500, nunca se pretendeu erradicar o alfabeto latino, nem se fosse adotado o tupi-guarani.


(Clipping 03.05.2010 Folha de São Paulo, 03/05/2010 - São Paulo SP Nem qualidade nem mérito Desde a redemocratização, indiferente à urgência da reforma política, ampla, geral e irrestrita, a educação não conseguiu avançar EDUARDO PORTELLA )

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