Pelo Corredor da Escola

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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Carta de uma Professora Mineira – 6º Capítulo


Logo depois de ter conversado com a coordenadora, liguei para Candice na Regional Centro Sul e ela se prontificou a passar a questão para os responsáveis. Até hoje ninguém veio falar comigo. Na semana passada a coordenadora informou-me que ele é autista.

Durante o ano passado, participou do projeto de reforço e teve um grande avanço, mas esse ano ainda não há projeto. Eu me pergunto: o projeto para essas crianças deve ter interrupção? Ora, Áurea, eram férias!!! Será que projetos para tratar de tamanha seriedade devem entrar como qualquer outro na mesma dinâmica?

Ah!, mas o aluno precisa de férias!!! Que férias longas, não, já estamos no final de março.
E Isabela? Segundo a coordenadora, chamou a mãe e essa disse que ela não tem nada. A garota, com 8 anos de escolaridade, não lê, se copia do quadro, inventa letras para escrever, pois a cópia não reflete o que está escrito no quadro, não sorri, não se levanta, mal responde alguma pergunta, mas de cabeça baixa.

Não incomodam, ninguém os coloca para fora de sala!!! Para quê? nunca estiveram lá dentro mesmo. Mas isso mexe e mexe muito comigo, com minha responsabilidade humana e profissional. Volto para casa sempre pensando o que preparar para eles, além de pedir que colem os pequenos textos no caderno, contudo ainda não descobri o que fazer. Nunca dei aula para autistas, sei que há diferentes casos.

E ela, mais uma carteira na sala de aula!!! Duro, pesado perverso, mas é isso. E isso dói, dói fundo na alma, na responsabilidade, na ética.
Mas será que vai doer por longo tempo? Será que daqui uns meses, um ano eu não me acostumei. Será que devo ficar pensando, sofrendo por esses alunos que ao final do ano receberão o certificado de conclusão do ensino fundamental, e deixarão de ser responsabilidade do município?

E o Warley? Parece-me que também é autista (já não sei, se é isso mesmo, depois de tantas lágrimas, raiva e sentimento de impotência e sem meu caderno nas mãos, não posso afirmar com certeza), garoto de 12 anos, como dizia minha avó, robusto, com dentes enormes e clarinhos. Não entende lá muita coisa, mas faz uma letra de forma, caixa alta, invejável. Já gastou quase toda a parte de Língua Portuguesa do caderno, com a sua super letra.

Adora ver livros, revistas, vira e mexe está na biblioteca. Nunca esquece o material. Não sei há quanto tempo está na escola, mas me parece que desde o ano passado. Coitado!!!! Não sei se essa é a melhor expressão. Vive com o peito, braços, abdômen roxos de tanta pancada dos colegas. Aproveitam de sua deficiência e sopapos e ponta pés por todos os lados.

Semana passada a coordenadora falava em mudá-lo de sala.
Incomoda? Não, de vez em quando dá uns gritos insuportáveis e uns murros na carteira, no meio da aula, e, se vc estiver distraída, leva aquele susto, mas nada que atrapalhe tanto o andamento das aulas.

Mas a mim incomoda – incômodo insuportável - ter em minha frente - ele se assenta colado à mesa do professor - um saco de pancadas e me incomoda, sobretudo, a atitude dos colegas que em um ano ainda não aprenderam a respeitá-lo. Isso é inclusão? È garantir direitos?


(Acompanhe o próximo capítulo)

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