Pelo Corredor da Escola

Apontar temáticas do cotidiano escolar é o objetivo primeiro deste blog, na intenção de ser "elo" entre as partes envolvidas (aluno/professor). A reflexão é o nome deste elo, que não só une, mas debate e critica os principais livros do Brasil e do mundo.

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Corrida da Qualificação


Um grupo incomum de passageiros tomou boa parte de um voo da Varig que decolou do Rio de Janeiro rumo a Frankfurt em julho de 2007. No avião, 35 metalúrgicos da Companhia Siderúrgica do Atlântico, então ainda em fase de construção, partiram para temporadas de até um ano de treinamento na sede mundial da ThyssenKrupp, na cidade alemã de Duisburg. Desde então, outros 175 brasileiros já foram enviados à matriz pela multinacional, dona da CSA em sociedade com a Vale. Os "200 da Alemanha", recrutados na concorrência por salários em média 20% maiores, formam hoje a elite dos 2 300 empregados da CSA, usina que será inaugurada em julho em Santa Cruz, na região metropolitana do Rio de Janeiro, e terá capacidade para produzir 5 milhões de toneladas de aço por ano. Desse total de funcionários, apenas 600 já tinham qualificação para as funções que iriam ocupar. Os outros 1 700, com pouca ou nenhuma experiência, tiveram de ser treinados no canteiro de obras desde 2007, quando os primeiros tratores começaram a terraplenagem. "O Brasil vive uma enorme carência de profissionais qualificados, e não dava para pensar num projeto dessa magnitude com tanta gente sem experiência. O jeito foi treinar 75% da força de trabalho", diz Valdir Monteiro, diretor de recursos humanos da ThyssenKrupp CSA. Embora a discussão sobre a necessidade de formar profissionais com nível superior seja antiga no país, a carência de mão de obra de nível médio - como soldadores, operadores de máquinas, pedreiros e carpinteiros - é relativamente recente e desconcerta governo e empresas. "A falta de gente qualificada é uma de nossas piores fraquezas, pois impede que o país cresça por vários anos seguidos", diz Marcelo Odebrecht, presidente do grupo formado por oito empresas, entre elas a maior construtora do país. "A consequência é a frustração dos investimentos pela perda de qualidade, de produtividade e, consequentemente, de aumento de custos. Esse é um verdadeiro drama para a economia." Como ainda não se conseguiu produzir um plano integrado para atacar o problema, o resultado é uma espécie de gincana nacional de treinamento e seleção - com empresas roubando profissionais umas das outras. "Há três anos só se falava em falta de profissionais de ponta", diz Vicente Picarelli, especialista em gestão de pessoas e sócio da consultoria Deloitte. "Agora as empresas estão sendo obrigadas a planejar toda a sua necessidade de pessoal no longo prazo." O setor privado, que se acostumou a investir em qualificação, está novamente tendo de resolver o problema à sua maneira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que ao menos 20% das pessoas com algum tipo de formação técnica saem dos cursos do Sistema S, como os do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), que ampliou suas vagas em 18% desde 2006. No mesmo período foram criadas pelo menos 150 universidades corporativas no Brasil, segundo um estudo da pesquisadora Marisa Eboli, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. A Vale, que criou em 2003 uma universidade corporativa, chegou a formar 1 900 pessoas no ano passado em funções como maquinista ou técnico de manutenção depois de ampliar o treinamento para cursos externos. A mineradora, a caminho de voltar aos níveis de produção que tinha em 2008, terá de contratar 6 000 funcionários no Brasil e estima investir 60 milhões de reais em treinamento. Mesmo quem não atua em setores que exigem formação muito especializada, como os varejistas, já começou a rever sua forma de recrutar funcionários. O Walmart planeja 10 000 admissões neste ano para sustentar a abertura de 100 novas lojas. Desse contingente, 1 500 serão o que a rede chama de "eiros" (padeiros, confeiteiros, açougueiros), especialistas já em falta no mercado. "Os profissionais desse tipo estão no pequeno comércio e não fizeram cursos formais. Teremos de treinar pelo menos 400 deles", diz Marcos Próspero, vice-presidente de recursos humanos do Walmart no Brasil. A empresa criou, no segundo semestre de 2009, um centro de treinamento só para formar os "eiros". A primeira turma começou em outubro, na Bahia. Até o final deste ano, 1 000 jovens profissionais devem ser formados. Mas não são apenas as empresas que têm de aprender a planejar a preparação de mão de obra. Os formuladores de políticas públicas também precisam começar a oferecer alternativas à altura do desafio, e para isso têm de melhorar a qualidade dos dados com que trabalham. Recentemente, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, divulgou um estudo indicando que haverá sobra de 653 000 pessoas no mercado de trabalho brasileiro em 2010. No próprio estudo, porém, os números por setor e por estado sugerem que o cenário é bem mais duro do que aparenta. Faltam profissionais em áreas tão variadas como comércio, hotelaria, indústria, saúde e educação, em porções diferentes distribuídas por quase todo o país. O número geral positivo da oferta de trabalhadores superior à demanda esconde a realidade localizada da carência de mão de obra qualificada para muitas funções. Essa é a realidade percebida pelas empresas que estão expandindo os negócios. O fato é que há um paradoxo que o Brasil ainda está longe de solucionar: de um lado, milhares de desempregados pouco ou nada qualificados em busca de um lugar no mercado de trabalho e, de outro, a carência de profissionais que possam desempenhar as tarefas de uma economia mais moderna, na qual o domínio de alguma tecnologia é mandatório. COMO NÃO É POSSÍVEL DESLOCAR automaticamente as pessoas que estão sobrando para preencher os postos em aberto, antes de começar a planejar devesse saber qual o tamanho do esforço a ser feito. Nas últimas semanas, EXAME pesquisou os bancos de dados do Senai e dos ministérios do Trabalho, da Ciência e Tecnologia e do Turismo sobre 12 setores, que incluem desde siderúrgicas como a CSA até fornecedores da cadeia de petróleo e de tecnologia da informação. O resultado mostra que, além dos 6 milhões de trabalhadores que todo ano já recebem algum tipo de qualificação, será preciso formar mais 1,3 milhão só em 2010. Para efeito de comparação, seria como formar o equivalente a 140% das pessoas que conseguiram emprego formal no ano passado e 54% do que o Senai formou no mesmo período. Ainda assim, representantes do governo e do setor privado evitam falar em apagão de mão de obra. "As empresas sempre encontram uma alternativa. Nunca uma indústria parou ou uma obra deixou de ser construída por falta de gente", diz Carlos Maurício Prado, presidente da Abemi, associação que reúne empreiteiras e empresas de engenharia. É verdade que o país tem 6,5 milhões de desempregados e, a cada ano, 1,7 milhão de trabalhadores entram no mercado. E também é fato que um terço dessas pessoas tem alguma qualificação e experiência. Mas os indícios são de que a oferta de mão de obra e a demanda das empresas estão ficando perigosamente desequilibradas. Conforme um estudo recente da Confederação Nacional da Indústria, a demanda por profissionais de nível médio cresceu 200% no Brasil de 1995 a 2005. A entidade concluiu que, sempre que o país cresce a taxas superiores a 4% ao ano, faltam braços. Os economistas preveem crescimento econômico anual de 5% nos próximos cinco anos. Ou seja, o problema só tende a se agravar. Em países mais desenvolvidos, é alta a proporção de alunos que saem do ensino médio com algum tipo de preparação para o mercado. Na Finlândia, que tem um dos melhores sistemas educacionais do mundo, 88% dos jovens concluem o ensino médio com qualificação profissional. No Chile, a proporção é de 32%. No Brasil, onde há seis estudantes universitários para cada aluno de curso técnico - relação inversa à dos países desenvolvidos -, apenas 8% dos jovens concluem um curso médio de nível técnico. "Além de pouco difundido, o ensino profissionalizante no Brasil é visto com preconceito, apesar de ser tão importante para a economia quanto o ensino superior", diz Alberto Rodriguez, estudioso de inovação e competitividade no Banco Mundial. É justamente a competitividade - ou a falta dela - a principal preocupação das empresas que correm para formar profissionais por conta própria. Isso porque treinar profissionais, além de dinheiro, requer tempo. A dificuldade para resolver essa equação impõe um preço. "Se não tiver pessoal e a ferrovia não ficar pronta, o produto vai demorar mais para chegar ao porto. O comprador da China não quer saber de desculpas e irá comprar de outro país", diz Glauco Arbix, coordenador do Laboratório de Inovação e Competitividade da USP. UM DOS SETORES QUE MAIS correm o risco de ter a competitividade afetada pela escassez de mão de obra é o de petróleo. A Petrobras, que prevê investir 220 bilhões de reais até 2014, tem por norma contratar 60% de insumos e serviços de empresas nacionais. Mas, para suprir essa demanda, a cadeia de fornecedores terá de qualificar cerca de 600 000 profissionais, sem contar os 200 000 necessários para a própria Petrobras, que exigirão da estatal 550 milhões de reais até 2013. Os recursos vão para o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp), que já se tornou o maior plano de qualificação financiado por uma empresa no mundo. Mas nem os dirigentes do Prominp sabem ao certo se o Senai e outras instituições envolvidas conseguirão formar toda essa gente a tempo. "O risco de não preparar a indústria é a Petrobras ter de aumentar a importação de equipamentos e insumos", diz José Renato Almeida, diretor executivo do Prominp. "Há todo um país para construir e falta gente em todos os setores. Se as empresas nacionais não fizerem, alguém o fará", completa Marco Dalpozzo, ex-diretor de recursos humanos da Vale e sócio da consultoria Intervir. Se o Brasil fosse um país aberto à imigração, uma saída seria, ao menos temporariamente, buscar especialistas fora. Os Estados Unidos fazem isso há décadas levando cérebros da Europa e da Ásia para trabalhar em suas empresas e institutos de pesquisa. Os americanos ganham com a oxigenação de seu mercado de trabalho e mesmo os países fornecedores são beneficiados pela volta de mão de obra mais experiente. No Brasil, desde a década de 30 a entrada de forasteiros é limitada. Pela lei, as empresas só podem alocar estrangeiros em funções para as quais comprovadamente não haja profissionais no país. "Além de ser difícil, trazer trabalhadores de fora em grande número é caro", diz Fábio Romão, consultor da LCA. "A tendência é virem grupos menores, muito qualificados, para treinar os brasileiros. Quando se trata de mão de obra barata, o risco de imagem que uma polêmica com sindicatos pode trazer não vale a pena." A ThyssenKrupp passou por isso. Foi alvo de uma celeuma em 2008, quando trouxe 600 chineses para construir uma parte da CSA. A empresa teve autorização do Ministério do Trabalho, mas não pôde evitar o protesto do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia nem uma ação civil do Ministério Público do Trabalho. O Estaleiro Atlântico Sul, instalado em Suape, em Pernambuco, aproveitou uma nova conjuntura mundial para conseguir mão de obra especializada. No início deste ano, seus executivos foram buscar no Japão 200 soldadores brasileiros de ascendência oriental, os decasséguis. "Tenho de construir 12 navios nos próximos três anos e não podia correr o risco de perder o prazo. Perguntei à diretora de RH onde poderíamos encontrar profissionais de imediato e ela apontou o Japão", afirma Ângelo Bellelis, presidente do Atlântico Sul. Embora seja uma boa ideia, esse tipo de solução tem suas limitações. Para o Brasil resolver de fato o hiato de mão de obra qualificada, será preciso muito mais criatividade - e um preço pelo atraso de décadas no investimento em educação será inevitavelmente pago pelas empresas. Está sobrando ou está faltando? Um estudo do Ipea sobre o mercado de trabalho identificou que, no balanço geral do país, a oferta de mão de obra em 2010 deve superar a demanda em mais de 650 000 pessoas. Esse número, no entanto, esconde realidades regionais de falta de pessoal qualificado em diversos setores de atividade. O mapa das carências - As unidades da federação e os setores em que deve haver mais falta de mão de obra neste ano (diferença entre oferta e demanda)


São Paulo - Administração pública: 10 180. Educação, saúde e serviços sociais: 21 869. Hotelaria e alimentação: 28 571. Construção: 50 941. Comércio e serviços técnicos • 134 563 Rio de Janeiro - Hotelaria e alimentação: 4 441. Construção: 14 363. Comércio e serviços técnicos • 29 908 Paraná - Hotelaria e alimentação: 4 927. Comércio e serviços técnicos: 16 177. Indústria: 21 348 Minas Gerais - Construção: 3 599. Educação, saúde e serviços sociais: 9 804. Comércio e serviços técnicos: 30 466 Rio Grande do Sul - Construção: 2 215. Hotelaria e alimentação: 5 843. Comércio e serviços técnicos: 21 842 Santa Catarina - Hotelaria e alimentação: 5 142. Educação, saúde e serviços sociais: 5 188. Comércio e serviços técnicos: 16 769 Ceará - Indústria: 7 191. Comércio e serviços técnicos: 8 205 Espírito Santo - Hotelaria e alimentação: 5 262. Comércio e serviços técnicos: 9 666 Pernambuco - Indústria e construção: 7 694. Comércio e serviços técnicos: 3 507 Rondônia - Construção: 8 661 Maranhão - Comércio e serviços técnicos: 6 065 Goiás - Indústria: 5 655 Distrito Federal - Indústria e construção: 5 577 Sergipe - Indústria: 2 599 Mato Grosso - Comércio e serviços técnicos: 2 090 Os setores mais carentes Áreas de atividade em que o balanço entre oferta e demanda de mão de obra é negativo no total do país -187 580 - Comércio e serviços técnicos -50 086 - Educação, saúde e serviços sociais -45 191 - Alojamento e alimentação 38 403 - Construção


Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)


Inversão de prioridades


O Brasil promoveu a expansão do ensino universitário nos últimos anos, mas o nível técnico evoluiu pouco... (número de estudantes matriculados, em milhões)


2002 - 0,6 - 3,5

2003 - 0,7 - 3,9

2004 - 0,4 - 4,2

2005 - 0,8 - 4,6

2006 - 0,8 - 4,9

2007 - 0,8 - 5,3

2008 - 0,9 - 5,8


...e a grande maioria dos jovens brasileiros não recebe qualificação profissional (proporção de jovens(2) que concluem cursos técnicos)


Finlândia - 88%

Alemanha - 63%

Chile - 32%

Coreia do Sul - 27%

Japão - 23%

Brasil - 8%

México - 4%


(Clipping 16.04.2010 - Revista Exame, 31/03/2010 - A falta de técnicos para sustentar a expansão da economia lança as empresas numa gincana para contratar e formar profissionais. Só neste ano, será preciso treinar 1,3 milhão a mais do que em 2009 - como fazer isso? Por RENATA AGOSTIN )

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